Dormir é para os fracos?

Muita gente gosta de contar sobre suas noites sem dormir – seja por conta de trabalho, estudo ou diversão. Estudos realizados com uma equipe de basquete feminino da Austrália mostraram que a qualidade do sono é mais importante do que se imagina. A pesquisa foi realizada pela Universidade da Austrália Ocidental (UWA, na sigla em inglês). Ela mostrou que mudanças na rotina antes de ir para a cama contribuem para um sono melhor e para um melhor desempenho no dia seguinte. No caso das jogadoras, elas jogaram bem melhor.

Segundo Ian Dunican, do Centro Para a Ciência do Sono da UWA, essa mudança de rotina envolveu, vários fatores. Entre eles, desligar todos os aparelhos eletrônicos pelo menos uma hora antes de ir para a cama, a fim de ‘acalmar a mente’. “Isso pode parecer óbvio, mas são detalhes extremamente importantes”, disse ele.

Levando em conta que passamos (ou deveríamos passar) um terço da vida dormindo e que nosso desempenho no dia seguinte depende e muito dessas horas, é preciso dar atenção ao assunto e tomar as decisões necessárias. Num mundo cada vez mais corrido, com tantos compromissos à nossa espera, há até quem diga que “dormir é para
os fracos”. Será?

Para falar sobre o assunto, Vida e Saúde entrevistou o médico Marcello Niek Leal, especialista em Diagnóstico por Imagem e estudioso da Medicina do Estilo de Vida. Veja o que ele disse:

Dr. Marcello, como podemos definir a insônia?
Em primeiro lugar, esclareço que esse é um tema extremamente complexo. Existem múltiplos fatores que interagem entre si, e que, de maneira alguma, pode ser abordado de forma singular. “Insônia” é um termo genérico que abarca diferentes classes de problemas. São várias causas e fatores, com, obviamente, diferentes tratamentos. Assim, podemos defini-la como uma dificuldade para dormir e/ou manter o sono, com os consequentes sintomas gerais decorrentes dessa condição.

Dentre os principais sintomas, podemos citar: sensação persistente de cansaço, sonolência diurna, irritabilidade e dificuldade de concentração. Além disso, lapsos de memória, dor de cabeça, distúrbios gastrintestinais, e em alguns casos depressão ou ansiedade.

Por que a insônia pode ser considerada um distúrbio de desequilíbrio?

A perda da qualidade do sono é decorrente de um desequilíbrio dos diferentes fatores que o promovem, sejam orgânicos, emocionais ou culturais. Assim, a insônia reflete um estado de ruptura nessa inter-relação entre diferentes aspectos de nossa vida. Além disso, entendemos a saúde como um estado de equilíbrio entre diferentes dimensões da vida. O repouso do sono exerce um papel importante e, por isso, problemas com o sono afetam também o equilíbrio geral da saúde. O desequilíbrio acaba trazendo sintomas que criam um ciclo vicioso que afeta o sono de volta, e assim por diante.

Alguns exemplos:

*Um problema de mal funcionamento na ATM, articulação da mandíbula com o crânio, por um ajuste deficiente de sua oclusão dentária. Isso pode causar dor de cabeça crônica, levando a uma péssima qualidade de sono.

*Níveis baixos de serotonina, vistos na depressão, e níveis altos de cortisol, típicos do estresse, podem causar insônia.

*Obesidade pode desenvolver um estado permanente de insônia, por diferentes mecanismos. Entre eles, a apneia do sono e o refluxo gastroesofágico.

Por que muitos buscam logo de cara resolver
o assunto com medicamentos?
Talvez por ser mais fácil, mais acessível, com menos esforço. Até mesmo mais complacente com uma vida na qual não se deseja ou não se podem mudar facilmente os hábitos. Não sou contra os medicamentos. Acho que eles têm seu papel e lugar certos, ajudam e resolvem muitos problemas, quando bem indicados. Contudo, podem se tornar um grande problema também.

Especificamente no caso da insônia, mais ainda, porque podem levar a um estado crônico de dependência muito difícil de reverter. Além de tratar a superfície do problema, ao invés da causa. Por isso, os medicamentos devem ser criteriosamente usados e bem indicados, sob os cuidados de um médico com visão integral da saúde.

Qual é a causa mais comum da insônia?
A insônia tem múltiplas causas, em diferentes dimensões, algumas se relacionando entre si e outras, não. De maneira geral, podemos dizer que as principais categorias de causas são:

  • Distúrbios na saúde emocional (estresse, ansiedade, depressão, etc.);
  • Condições médicas (obesidade, doenças inflamatórias crônicas, dor crônica, doenças respiratórias, etc.);
  • Uso de substâncias (cafeína, nicotina, álcool, etc.);
  • Hábitos de vida (rotina de trabalho, horários e tipo de alimentação, atividades antes de deitar, viagens, etc.).

Os distúrbios na saúde emocional têm tido um papel cada vez mais relevante na sociedade ocidental, em especial nos centros urbanos. Uma das causas mais comuns que vemos no dia a dia são situações de estresse, nas quais o excesso de cortisol promove a insônia, ou seja, a mente não desliga, está constantemente sobrecarregada. Níveis altos de cortisol mudam todo o metabolismo e colocam o corpo e a mente em um estado permanente de alerta. O pior é que cada vez mais isso é visto como algo bonito, admirado e elogiado. A obesidade e quadros de ansiedade também estão fortemente presentes nesse tema.

Obviamente que fatores sociais como a mobilidade proporcionada pelo telefone celular, com seus aplicativos e internet, por exemplo, agravaram severamente esse quadro de saúde pública mundial. Na prática, as pessoas não querem mudar. Acham bonito, mas não querem de verdade, porque não conseguem ou não estão dispostas a pagar o preço da mudança de estilo de vida, pelo fato de muitos estarem “presos” a esse estilo de vida tirano que lhes rouba tudo, inclusive o sono.

Tem havido uma inversão de valores aí…
Seguramente. O sono é um privilégio: restaura, renova, revive. Contudo, infelizmente, para muitos, dormir é perder tempo.

Quais seriam as melhores formas de prevenção da insônia e outros distúrbios do sono?

A avaliação médica é fundamental para identificar e tratar corretamente condições orgânicas que podem estar causando a insônia. Contudo, posso citar de maneira geral algumas recomendações:

*Evitar o consumo de substâncias estimulantes ou que alteram o ritmo do sono, como álcool, nicotina, cafeína e, obviamente, drogas ilícitas.

* Manter o peso dentro de uma faixa ideal.

*Fazer a última refeição do dia pelo menos quatro horas antes de deitar.

* Manter uma rotina de atividades físicas compatível com sua condição física, idade e preferência, durante a semana, pelo menos de 30 a 45 minutos por dia, quatro vezes por semana, em algum horário do dia, no mínimo quatro horas antes de deitar.

* Retirar do quarto celular e televisão, ou não usar durante a noite.

* Ter pelo menos um dia de repouso semanal, durante o qual você se “desliga” do trabalho, investe tempo no relacionamento social e em sua espiritualidade.

* Cultivar um hobby ou lazer não estressante.

* Praticar a higiene mental, treinando a mente para evitar pensamentos estressantes ou desgastantes na hora de deitar, desviando o foco para pensamentos agradáveis, prazerosos, espirituais, que relaxem a mente e permitam o repouso emocional.

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